O que acontece quando as favelas do Brasil enfrentam o mundo dos jogos on-line?

As crianças estão criando seus próprios futuros digitais! Dois novos videogames criados por crianças da favela de Vigário Geral foram lançados em dezembro.

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O que acontece quando as favelas do Brasil enfrentam o mundo dos jogos on-line?
DATA

Jul 1, 2023

AUTOR

Anna Fleck

A pandemia trouxe à tona a gravidade dessa situação, pois o fechamento de escolas fez com que mais de quatro milhões de alunos perdessem a educação por não terem acesso ao ensino remoto ou às aulas presenciais. Desses, os alunos negros ou indígenas e aqueles de famílias de baixa renda foram os mais afetados.

Cassiane Cardoso dos Santos, uma estudante de 17 anos de Vigário Geral, uma favela na cidade brasileira do Rio de Janeiro, é uma dessas estudantes. Ela explica: "No início da pandemia, foi muito difícil porque, para estudar, eu tinha que ter acesso à Internet e eu não tinha naquela época. Então, foi muito difícil não só para mim, mas também para meus irmãos. Isso acabou afetando muito minhas notas e também o aprendizado dos meus irmãos."

Para Thais Xavier, uma ilustradora e desenvolvedora de jogos de 23 anos que mora na Tijuca, outro bairro do Rio, isso também é um problema. "As coisas ficaram muito ruins na comunidade onde eu moro. A realidade era que muitas pessoas estavam perdendo seus empregos e não tinham o que comer. O curso que eu estava fazendo deixou de ser presencial e passou a ser online, o que me prejudicou, pois eu não tinha em casa os equipamentos necessários para o que a aula tratava", disse.

Mas uma iniciativa está abrindo as portas para um tipo alternativo de educação e até mesmo para uma possível fonte de renda.

Onde? No improvável mundo dos videogames.

A AfroGames é uma organização sem fins lucrativos sediada no Rio de Janeiro que se define como o primeiro centro de treinamento de jogadores de eSports do mundo dentro de uma favela. Equipado com equipamentos de jogos caros e de última geração, ele oferece a 100 jovens, com 12 anos ou mais, aulas de programação de jogos, League of Legends, Fortnite e inglês. Sua missão, explica o diretor executivo Ricardo Chantilly, é "trazer o mundo bilionário dos jogos para a favela".

E ele não está exagerando. Em 2020, o mercado de videogames foi avaliado em US$ 159,3 bilhões, de acordo com a Statista. E com a tecnologia se tornando cada vez mais acessível e a pandemia fazendo com que um número ainda maior de jogadores fique on-line, espera-se que esse valor atinja incríveis US$ 268 bilhões até 2025. Então, sim, se você quiser tentar a sorte no desenvolvimento de videogames, a hora é agora.

Falta de diversidade

O setor de jogos há muito tempo é um campo muito branco. No entanto, tem sido ainda mais desafiador para os jogadores das favelas devido aos obstáculos específicos do local. Além das velocidades mais lentas da Internet e da barreira de equipamentos de jogos caros, os atletas dessas comunidades têm de enfrentar batidas policiais, balas voadoras de grupos paramilitares da "milícia" e facções de drogas que recrutam novos membros nas ruas.

No entanto, à medida que as ferramentas de desenvolvimento de jogos se tornam mais acessíveis e a representatividade aumenta, estamos vendo uma nova onda de jogos com narrativas não eurocêntricas recentes, como Mulaka, The Wagadu Chronicles e Kabaret, para citar alguns.

Onde entra o TALES?

A Tales of Us (TALES) está de olho na criação de um videogame há algum tempo. Não apenas por causa da estimativa de 3,24 bilhões de jogadores no mundo em 2021 -ou seja, 3,24 bilhões de pessoas que têm o poder de apoiar a mudança social -, mas também porque o elemento interativo dos jogos abre reinos totalmente novos para contar histórias e entender as experiências de outras pessoas.

Inspirada pelo sucesso de Never Alone, da Upper One Games, que trabalhou em estreita colaboração com os Iñupiat, um povo nativo do Alasca, para contar suas histórias, a TALES começou a pensar em como outras comunidades poderiam querer compartilhar contos de suas culturas também por meio de jogos.

A TALES já tinha uma conexão pessoal com o Brasil entre os membros da equipe, então o projeto de mecanismo de jogo da iniciativa - World of Us (WoU) - propôs unir forças com a AfroGames.

Como? Convidando os alunos a criar minijogos virtuais em uma game jam. E que melhor fusão de ideias e interesses do que criá-los com base em mitos indígenas, contados sob a perspectiva dos próprios brasileiros.

A grande ideia

Os participantes com idades entre 12 e 29 anos foram convidados a se inscrever na maratona de desenvolvimento de jogos, intitulada Game Jam World of Us, que ocorreu entre 12 e 14 de novembro. Em seguida, foram divididos em grupos, onde puderam decidir quem assumiria as funções de pesquisador de histórias, roteirista, desenvolvedor e coordenador de pitch.

Eles tiveram apenas 48 horas para pensar em um conceito e desenvolvê-lo em minijogos 2D, usando a plataforma gratuita 'Construct' e a ajuda de ex-alunos da AfroGames, antes de apresentá-lo a um painel de jurados. Entre eles estavam Obirin Odara, ex-assistente social do AfroReggae; Ricardo Souza, especialista em animação e design 3D; Bernardo Assad, especialista do setor que também cresceu na favela; e Tainá Moreno, produtora brasileiro-holandesa da Tales of Us.

O prêmio em dinheiro: R$ 5 mil (cinco mil reais - ou € 1.569) para cada uma das duas equipes vencedoras.

De acordo com Marcela Zanon, que coordenou a organização do AfroGames pela TALES, o evento ensinou mais do que o básico de codificação e desenvolvimento 3D: "A única coisa que os alunos realmente sabem usar é o Discord, na verdade. Acho que eles já nasceram sabendo como usar. Eles nunca tiveram experiência sobre como organizar as coisas, como compartilhar conteúdo, como criar uma ideia e expressá-la, e como manter toda a equipe atualizada. Portanto, no final das contas, não se trata apenas de aprender sobre tecnologia, é muito mais do que isso."

O evento foi realizado na sede do AfroReggae, a organização guarda-chuva que começou em 1993 como um projeto de impacto social com o objetivo de reduzir os índices de criminalidade e tráfico de drogas nas ruas, capacitando as comunidades por meio da arte, da dança, da educação e da cultura afro-brasileira.

Naquela época, Vigário Geral havia sido manchete mundial quando ocorreu um massacre; um confronto entre a polícia e milícias em guerra resultou na morte de 21 pessoas inocentes. Embora a AfroGames tenha apoiado indivíduos na área, a guerra de gangues continua a marcar o cenário da comunidade. Quando perguntado sobre isso, Zanon descreveu que, ao passar pela praça principal para visitar o projeto AfroGames, viu crianças "jogando futebol, e havia um cara armado. E para eles, isso não é nada, estão totalmente tranquilos".

No dia

Dependendo das faixas etárias, os competidores responderam de forma diferente às instruções sobre mitologia, com as crianças mais jovens perguntando como poderiam tornar o jogo mais divertido e os alunos mais velhos refletindo sobre como o mito e o formato poderiam se relacionar com suas próprias histórias.

Depois de ler o briefing uma vez, Xavier soube imediatamente o que eles deveriam fazer.

"Foi incrível ver isso", explicou Manuela Rahal, outra coordenadora do evento. "Porque foi muito rápido. Ela misturou sua própria história com a história mítica. Achamos que eles iriam apenas ler o mito e criar um jogo. Não esperávamos que eles trouxessem sua própria percepção, individualidade, vida, história. Então, acho que esse foi o ponto alto do projeto para mim."

O jogo de Xavier começa com o personagem principal lendo e descobrindo um mito on-line. Apaixonada pelo conto, ela lê a história várias vezes até que acaba adormecendo. Em seus sonhos, ela se vê como Iansã, a guerreira, partindo em uma busca heróica para libertar um personagem chamado Xangô.

Xavier explica: "Essa história é sobre uma garota que quer descobrir sua ancestralidade e por que ela é como é. Essaé uma experiência que todagarotanegratem. Essa é uma experiência pela qual toda garota negra já passou: perguntar-se de onde vem seu nome de família e qual é sua origem."

No final do segundo dia, chegou a hora de ouvir a decisão dos juízes. O auditório estava lotado. Zanon se lembra: "Seus pais estavam lá. Suas avós estavam lá. Só de vê-los vivenciando algo que eles nem acreditavam ser possível. Foi incrível. A mãe de uma das meninas estava muito orgulhosa, dizendo: 'Ela é minha filha, essa menina vai correr o mundo'."

O jogo "Ominira", de Xavier, conquistou o primeiro lugar junto com "A lenda do Guaraná", baseado no mito dos povos indígenas Sateré-Mawé sobre a origem do guaraná brasileiro. As duas equipes passaram então para a fase de aceleração, onde foram orientadas por especialistas no desenvolvimento final de seus jogos.

Foi um sucesso?

Embora seja necessário trabalhar em várias frentes, inclusive com apoio federal, para lidar com as complexas questões do déficit educacional e da desigualdade social, projetos como esse podem beneficiar as pessoas criando novas oportunidades de trabalho e promovendo um reconhecimento mais amplo do talento que existe no país.

Como Xavier explicou: "O que eu espero que as pessoas aprendam é que os jogos independentes possibilitam que nos identifiquemos com esse tipo de narrativa. Eles podem mostrar o valor e a beleza de nossa ancestralidade, que durante anos foi considerada indigna. Isso tem um impacto enorme porque não só me dá forças para continuar, mas também é uma oportunidade de mostrar aos meus amigos e familiares que, além de ser divertido, é um trabalho."

Para Chantilly também, o projeto é um marco. "Um projeto de inclusão digital e impacto social como o AfroGames é um espaço de oportunidades e acolhimento para crianças e jovens que vivem em situação de vulnerabilidade social. Por meio de cursos e eventos como uma game jam, os alunos conseguem ver o mundo com uma perspectiva mais otimista. E isso não afeta apenas a criança ou o jovem que participa do projeto, mas também a família, os amigos e a comunidade local. Porque é por meio do projeto e das atividades que ele promove que a favela é vista, sentida e compartilhada com o mundo", disse ele

Projetos liderados pela comunidade como esse podem ser repetidos em outros lugares e, de acordo com Xavier, devem ser: "Eventos como esse trazem uma nova visão, não apenas para aqueles que vivem nas favelas, mas uma mensagem importante para o resto do mundo. As favelas não são apenas violência e miséria, elas também estão cheias de potencial, trabalho, sonhos e inteligência."