Nesta entrevista, somos duas pessoas negras que se comunicam usando diferentes estratégias produzidas a partir de nossas identidades. Essas estratégias são criadas não apenas para a sobrevivência, mas também para reelaborar o futuro junto com o presente a partir de uma perspectiva ancestral.
Obirin: Para começar, conte-nos um pouco sobre sua trajetória, João?
João: Meu nome é João Araió e estou falando com você agora do território da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Nasci no Piauí e vim para cá quando tinha 10 anos de idade. Sou jornalista de profissão e, quando me encontrei no mercado de trabalho, sofri algumas decepções profissionais, principalmente quando trabalhava como assessor de imprensa. Por isso, decidi procurar outro caminho. Entrei em um coletivo chamado 'Ocupa Alemão', a partir do qual foi criada a ideia do GatoMídia.
O coletivo Ocupa Alemão surgiu em um contexto de violência contra os jovens daquele território, na virada de 2012 para 2013. Estávamos no auge do avanço da política de Segurança Pública no Rio de Janeiro com a implantação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Surgimos em um momento de aumento da violência policial, que trouxe muita violação dos direitos da população negra, além da criminalização da vida cotidiana na favela, da cultura e do conhecimento. Isso provocou uma espécie de mecanização da vida dentro das comunidades. Começaram a implantar o toque de recolher a partir das 10 horas da noite no Complexo do Alemão e no Borel. O coletivo realizou uma ação de enfrentamento a esse toque de recolher, que também incluiu uma atividade cultural para conscientizar os moradores. Foi desse desejo de criar um espaço que também fosse de troca e compartilhamento de conhecimentos e experiências que nasceu a ideia do GatoMídia. No início, era um conjunto de oficinas em que levávamos algum conteúdo para os jovens do Complexo do Alemão e, aos poucos, fomos criando e construindo nossa própria identidade. Havia uma necessidade de esses jovens olharem com outros olhos para a tecnologia que já existia, da qual eles já tinham um certo entendimento, então seguimos esse caminho e desenvolvemos o projeto aos poucos.
Obirin: Então, já se passaram 10 anos desde que essa iniciativa nasceu, certo? Eu acho essa história muito interessante, porque há uma série de demandas urgentes que surgem quando estamos em um contexto de militarização como esse, que impacta diretamente o corpo e a vida cotidiana. A segurança pública do Estado, nas favelas, surge como um controle sobre todos os aspectos da vida e cria demandas para a comunidade que devem ser mantidas para que as pessoas sobrevivam.
Discutir a tecnologia, nesse contexto, pode parecer distante, mas a tecnologia também tem a ver com (re)criar a possibilidade de existir. É incrível observar como a GatoMídia alimenta esse sonho em meio a tantas políticas de morte, o que torna o pensamento sobre tecnologia um desafio maior do que já é. Como vocês construíram essa narrativa e até mesmo como divulgaram essa ideia em um contexto como esse?
João: O que você acabou de mencionar me fez lembrar de algo que o Ailton Krenak disse em uma entrevista. Ele explicou que, com a tecnologia, a mediação entre o local e o global deixa de existir. Então, sem a tecnologia, o jovem que está na periferia passa por vários filtros de acesso à informação. Com a tecnologia, ele agora tem um caminho mais fluido para essas informações e pode ter acesso direto a elas ou pode produzir informações e fazer o caminho inverso também.
A lógica do GatoMídia está muito alinhada com isso, pois trabalha para transformar cada jovem da periferia em um comunicador em potencial, como criador de sua própria narrativa. Por isso, nosso eixo de aprendizagem tem como objetivo realizar mais oficinas de capacitação, com uma metodologia que vamos criando ao longo do tempo.
Obirin: Fico sempre feliz quando as ideias dos negros se concretizam, pois sabemos que o Brasil nos traz muitos percalços que dificultam a realização de nossos sonhos, ideias e projetos. Imaginar já é um processo difícil para vislumbrarmos cenários possíveis e é muito bonito e poderoso ver como uma ideia de um grupo de jovens negros e favelados está viva e atuante há 10 anos.
Em termos da perspectiva formativa do GatoMídia, vocês se baseiam muito em pessoas negras, periféricas e indígenas no campo da tecnologia. Quando olhamos para a educação formal no Brasil, de acordo com o Censo da Educação Superior que foi elaborado pelo Ministério da Educação em 2020, o Brasil formou 51 mil profissionais na área de computação e tecnologia da informação e comunicação, dos quais apenas 32% são negros e pardos e 1% são indígenas. Ou seja, nos cursos que mais diretamente preparam as pessoas para a tecnologia, temos a grande maioria de pessoas brancas. Além disso, há também a perspectiva que não considera a contribuição do continente africano e dos povos ameríndios, como se apenas a Europa e os EUA tivessem algo a contribuir para a área e, consequentemente, para o futuro.
Obirin: Como a GatoMídia acredita que a tecnologia e a capacitação de negros e indígenas podem nos permitir entrar nessa área?
João: A academia em geral é muito eurocêntrica. Por isso, já podemos perceber que o colonizador está lá para negar a identidade, a humanidade e o conhecimento dos povos colonizados. As civilizações pré-coloniais aqui nas Américas já estavam desenvolvendo suas tecnologias e tudo estava contido nessa ideia da chamada "descoberta" e colonização. Essa linha de pensamento é o mesmo que negar que existam tecnologias sendo criadas em comunidades periféricas, tradicionais e indígenas. Então, quando vamos debater sobre o ensino acadêmico, já partimos desse ponto. É por isso que o GatoMídia vem com esse contra-discurso; para dizer que o conhecimento negro, indígena e periférico existe e que não está aqui para "transferir" conhecimento, mas para compartilhar e trocar.
Quando pensamos em formação, um dos critérios é a capacidade de aplicar o conhecimento, então os conteúdos que promovemos nos laboratórios vêm do território, unindo assim as filosofias africanas e as cosmologias indígenas. Isso acontece em nosso laboratório permanente ameríndio, por exemplo.
Obirin: Você pode explicar melhor como a GatoMídia iniciou seus processos formativos em formato de laboratório?
João: Começamos com oficinas de fotografia, redação criativa e redes sociais. No início, estávamos muito ligados à onda da Web 2.0. Depois que nos tornamos independentes, começamos a produzir residências um pouco maiores e com oficinas mais elaboradas. Nossa primeira residência se chamou 'Favelado 2.0', justamente para trazer essa ideia de usar as redes sociais como ferramenta de produção de comunicação e narrativa de dentro da favela. Começamos a diversificar as residências à medida que conseguimos mais parcerias e recursos para custear tudo o que estávamos criando. Em 2018, surgiu o primeiro Laboratório Afrofuturista, trazendo também novos conteúdos para laboratórios sobre tecnologias como inteligência artificial. Em 2019, fizemos a segunda edição ainda com essa intenção de trazer o aprendizado em realidades virtuais e, a partir de 2020, com a pandemia, precisamos nos readaptar. Isso foi meio que uma bênção e uma maldição, pois agora temos um alcance mais nacional por causa do formato on-line.
Atingimos muitas pessoas no norte e nordeste do Brasil e, com isso, percebemos a maior importância de trazer conteúdos que estejam ligados à ancestralidade desses territórios. Também começamos a incorporar a filosofia africana, junto com o conhecimento da diáspora africana, o conhecimento dos povos originários do Brasil, que hoje fazem parte do laboratório permanente afro-ameríndio. Nesse laboratório, temos uma grade de conteúdos obrigatórios e depois dividimos a aula de acordo com os interesses de cada aluno, em três 'linguagens' diferentes: narrativas tecnológicas, narrativas imersivas e narrativas visuais. Na última edição, produzimos uma campanha que estamos divulgando agora. Chama-se 'O Brasil que imaginamos', onde trazemos conceitos políticos que vêm desses territórios. Isso oferece um patrimônio muito rico desse conhecimento ancestral.
Obirin: Como foi sua relação com a tecnologia no início, já que não é sua área de formação?
João: Eu fui um jovem que teve acesso à tecnologia muito tarde. Só tive meu primeiro computador quando já estava na faculdade, e o acesso à Internet só aconteceu no final da adolescência. Por conta disso, ainda tenho uma relação conturbada com redes e plataformas sociais. Quando decidi participar do GatoMídia, ainda tinha esse pouco conhecimento, mas costumamos dizer que aprendemos quando fazemos. A tecnologia mais acessível para nós é o celular, que é e sempre foi uma ferramenta a que a maioria dos jovens das favelas e da periferia tinha acesso, mesmo que de forma precária. Então, começamos com essa ferramenta e fomos tendo acesso a outras tecnologias.
Obirin: É importante dizer que, para discutir tecnologia, não precisamos necessariamente ser formados em áreas da ciência da computação, certo? Podemos começar com o que temos e o que já sabemos.
Pensando na relação entre tecnologia e raça, percebemos que a branquitude tem outras preocupações porque ela não tem sua vida colocada em risco por causa de sua identidade racial. Acho que esse é o primeiro ponto: não ter que se preocupar com a sobrevivência permite uma realocação de energia, como poder pensar em gastronomia molecular, carros voadores, robôs que limpam casas... há outras preocupações porque eles têm tempo para pensar em outras coisas na vida.
Penso muito nisso quando falamos de tecnologia sob a perspectiva de alguém que é branco, heterossexual, cis, do norte global e, em geral, daqueles que estão pensando em tecnologia em nível global. Não se trata apenas de uma questão de falta de representação. Não incluir pessoas com outras identidades, como negros e indígenas, mulheres, latinos, pessoas com deficiência, LGBTQIA+ e afins, também é não falar sobre o propósito da tecnologia que eles produzem, porque a tecnologia é um produto de nossa preocupação e de como percebemos e vivemos o mundo. Com base nisso, gostaria que você compartilhasse pelo menos um projeto que tenha sido produzido nos laboratórios por pessoas negras, indígenas e/ou faveladas.
João: Gostamos de dizer que, assim como a comunicação, a tecnologia não é neutra. Ela traz todo um conjunto de valores de quem a faz, e quando pensamos em tecnologia produzida por negros e indígenas, estamos pensando em tecnologia com um conjunto diferente de ética.
Ao longo da existência da GatoMídia, produzimos muito conteúdo, tanto criando e pensando visualmente, quanto na reprodução desse conhecimento. Tivemos um laboratório em que os alunos pensaram em um jogo que retratasse o cotidiano da favela e a ideia era desconstruir alguns estereótipos sobre as pessoas que moram na favela e como resolvemos os problemas cotidianos à nossa maneira.
Outro exemplo são as narrativas imersivas que lançamos em 2019. Foi o ano do segundo laboratório Afrofuturista, em que já estávamos pensando em produzir algumas ideias, incluindo realidade virtual. Nos inscrevemos em um edital da ONU para um programa voltado para a produção de narrativas imersivas. Fomos selecionados e tínhamos o equipamento para produzir, então montamos uma equipe e produzimos duas narrativas imersivas no Complexo do Alemão e na Maré. São os primeiros documentários 360°, em formato de curta-metragem, feitos por pessoas da favela. Um deles foi selecionado para ser exibido durante a assembleia da ONU daquele ano em Nova York, com outros nove de todo o mundo.
Por fim, dentro dos laboratórios também surgiu a ideia do Immersive Favela Festival para popularizar a tecnologia entre as pessoas das favelas e da periferia a partir da necessidade das pessoas de mostrar mais conteúdo produzido dentro dessas comunidades e estimular essas pessoas a produzirem mais desse conteúdo, o que aconteceu em 2021. Isso gerou outras conexões além dos mares, com africanos que também produzem narrativas baseadas em territórios.
A ideia é que a gente produza mais, e ainda mais em parceria com as pessoas que passaram pelo GatoMídia. Somos uma rede viva que está sempre produzindo.
Obirin: Para finalizar, João, gostaria que você respondesse: o que é tecnologia para você?
João: Acho que a tecnologia só faz sentido quando parte da compreensão do nosso corpo. É entender as necessidades desse corpo, onde ele está, e o que queremos deixar, expressar, falar, quais histórias queremos tornar visíveis. Acho que a tecnologia é um meio de trazermos essas histórias para o primeiro plano. A tecnologia é uma forma de pensarmos sobre as relações de produção, as relações de consumo e de cuidado. Ou seja, como também podemos usar a tecnologia para pensar sobre o cuidado, não apenas pensando na saúde mental, mas também pensando em nosso território, corpo, lar, onde as pessoas vivem.
Obirin: Obrigado, João. Espero que, com isso, mais pessoas negras e indígenas do mundo se sintam encorajadas a competir pela tecnologia sob outro paradigma. Parabéns ao GatoMídia e vida longa a esse projeto!